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Revista Veja . Edição 1766 .
28 de agosto de 2002 |
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Entrevista:
Philip James |
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O criador da Obesity Task Force,
órgão que monitora o aumento da obesidade no mundo, diz que nenhum
governo adotou as medidas corretas para atacar o
problema |
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Tania Menai |
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AFP

"Sentimos pena dos famintos mas menosprezamos os obesos. Achamos que eles comem demais porque são fracos" |
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O professor britânico Philip James tem 64 anos, 1,73
metro de altura e pesa 73 quilos. Ainda assim, luta diariamente contra a
obesidade. Não que tenha problemas para afivelar o cinto. Como presidente
da International Obesity Task Force (IOTF), organização criada por ele em
1996, seu trabalho é chamar a atenção para o que aponta como um dos
maiores problemas do planeta atualmente: uma epidemia de obesidade que há
vinte anos não pára de se espalhar. Formado em medicina, James,
ironicamente, começou a carreira estudando o oposto de sua atual obsessão:
a subnutrição. |
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Foi diretor do Rowett Research Institute, na Escócia, a
maior organização de ciências nutricionais do Ocidente, escreveu estudos
sobre obesidade para o Royal College of Physicians de Londres e
desenvolveu um programa de combate à obesidade para o governo da
Inglaterra. Autor de catorze livros, James assessora governos na criação
de leis de nutrição e presidiu a comissão da ONU sobre os desafios
nutricionais no século XXI. Líder em pesquisas sobre a influência da
obesidade nas doenças, ele prepara um documento, a ser divulgado no ano
que vem pela Organização Mundial de Saúde, sobre dieta e prevenção de
doenças crônicas. Mas nos últimos dois anos tem freqüentado mais
aeroportos que o meio acadêmico – viaja pelo mundo verificando as causas e
os danos da obesidade em diversos países, além de auxiliar especialistas
internacionais que buscam uma saída de emergência para o problema. Seu
próximo desembarque será em São Paulo, onde, de 24 a 29 de agosto,
participa do IX Congresso Internacional de Obesidade. Antes de viajar,
James conversou com VEJA por telefone de sua casa, em Londres. |
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Veja – Em 1975, o Brasil tinha de dois a quatro
casos de subnutrição para cada caso de obesidade. Em 1996, virou: eram
dois casos de obesidade para um de fome. A "globesidade", como o senhor
chama, é um problema mais sério que a fome? James
– Existem hoje no mundo 800 milhões de pessoas
subnutridas e 1 bilhão de obesos. Isso é assustador. Há vinte anos
assistimos a uma epidemia de proporções nunca vistas na história da
evolução da humanidade. Não há dúvida de que a fome requer grande atenção
política, sobretudo em partes da África, da Índia e da Ásia, onde há
imensa pobreza, pessoas abaixo do peso e mortalidade infantil. Mas agora
estamos em uma nova fase, a chamada "transição nutricional", que reúne
fome e obesidade em um mesmo país, até em uma mesma cidade. E o pior é que
os dois problemas são encarados de forma diferente. Dos famintos sentimos
pena, nos comovemos com seu desespero. Dos obesos sentimos menosprezo,
achamos que comem demais porque são fracos. |
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Veja – Obesidade é problema maior nos países
ricos? James
– Por enquanto, sim, mas isso está mudando. Na
prática, as pessoas pobres são mais obesas que as ricas, principalmente na
América Latina. As pessoas de baixa renda não têm chance de escolher uma
dieta de boa qualidade e de se exercitar fisicamente. Sua alimentação é
carregada de gordura e açúcar. Quem cresce lutando contra a fome acaba
achando que o mais importante é simplesmente comer. Essas pessoas associam
a gordura com riqueza, sonham em ingerir enormes quantidades de carne. Até
os programas de governo para erradicar a fome são afetados por essa visão.
Não adianta alimentar as pessoas se a comida não for de boa
qualidade. |
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Veja – Nos Estados Unidos, onde problemas
decorrentes da obesidade matam 300.000 pessoas por ano, a previdência
social precisa destinar a cada mês quase 80 milhões de dólares para o
sustento de 137.000 obesos incapacitados para o trabalho. Qual o peso
financeiro dessa doença para os governos? James – Os gastos são incríveis. O governo americano acaba de
revelar que o custo anual, direto e indireto, da obesidade no país é de
117 bilhões de dólares, mais do que o das doenças relacionadas ao tabaco.
E as cifras aumentam a cada ano. Em geral, os custos diretos do problema
em diversos países variam de 2% a 8% do orçamento para a área da saúde.
Isso sem contar os obesos que pararam de trabalhar, tornaram-se menos
eficientes no trabalho ou morreram cedo, em plena produtividade
profissional. O risco de morte prematura dobra para as pessoas obesas. |
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Veja – Das doenças relacionadas com a
obesidade, qual a mais grave? James
– O diabetes é uma das mais terríveis. Por causa da
obesidade, pela primeira vez adolescentes estão sendo diagnosticados com
uma de suas versões mais sérias, o diabetes tipo 2. Especialistas em
pediatria do mundo todo têm me procurado em busca de soluções. Há algumas
semanas, visitei uma clínica em Cingapura que há cinco anos tinha quinze
casos pediátricos de diabetes tipo 2 e hoje tem sessenta. São crianças
condenadas à cegueira, a problemas cardíacos e hepáticos – seu fígado
provavelmente vai falhar por volta dos 30 anos. E a expansão do diabetes
por causa da obesidade tem ocorrido principalmente na América Latina e na
Ásia. |
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Veja – Como se deve começar a combater a
epidemia de obesidade? James
– Até mesmo o governo dos EUA, tido como o mais
conservador desde a II Guerra Mundial, acha absurdo que as escolas tenham
máquinas de vender refrigerantes, chocolates e biscoitos e, ao mesmo
tempo, tentem passar noções de boa alimentação. Quando Tony Blair (o
primeiro-ministro inglês) tomou posse, entrei em contato com seus
encarregados de saúde pública e educação e mostrei que a alimentação das
crianças abaixo de 5 anos na Grã-Bretanha é terrível e que elas costumam
passar o tempo livre trancadas em casa, na frente da televisão. E
televisão significa, em última instância, falta de exercício físico e
apelo a uma alimentação errada. |
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Veja – Como reverter esse
quadro? James
– Cabe a nós, individualmente ou por meio de órgãos
independentes, documentar e analisar o problema. Para os governos, é
difícil agir contra a indústria alimentícia. Não é como as fábricas de
cigarros, às quais se pode acusar de fazer mal à população e pronto. Todos
nós precisamos de comida – a questão é comer bem. E isso raramente
acontece. Os alimentos do tipo fast food estão cada vez mais baratos. O
preço mundial do açúcar, da gordura, dos óleos é muito baixo. Em
conseqüência, seu consumo só faz aumentar, sobretudo nas camadas de mais
baixa renda. |
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Veja – Recentemente, um nova-iorquino de 125
quilos processou quatro redes de restaurantes fast food, alegando que, até
ter o segundo ataque cardíaco, não havia se dado conta de que uma dieta à
base de hambúrguer, milk-shake e batatas fritas não era saudável. Esse
processo faz sentido? James
– Essas redes são, sim, parte do problema.
Processá-las é a maneira tipicamente americana de lidar com a questão, mas
também significa que as pessoas estão realmente começando a dar atenção ao
assunto. Os restaurantes fast food manipulam as crianças e os adultos. Eu
não aconselho ninguém a comprar o que eles vendem. |
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Veja – Até que ponto a genética é responsável
pela obesidade? James
– Apenas uma pequena proporção de casos envolve
diretamente os genes. Isso fica claro na rapidez com que o problema da
obesidade explodiu. Não é possível que os genes de todo mundo tenham
mudado. O que mudou foi o ambiente que nos cerca. |
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Veja – Há alguns anos, o Brasil introduziu a
obrigatoriedade de etiquetas indicando os valores nutricionais nas
embalagens de produtos alimentícios. Isso torna as pessoas mais
conscientes do que comem? James
– Essas etiquetas são inúteis. O máximo que se
consegue é comparar diferentes etiquetas no mesmo produto e ver qual tem
menos sal e gordura. Há doze anos, a Organização Mundial de Saúde
desenvolveu um sistema de etiqueta por meio do qual seríamos efetivamente
capazes de diferenciar as comidas boas das ruins. Nenhum governo teve a
coragem de implantá-lo. Quando os nutricionistas dizem que não existe
comida boa e ruim, e sim boas e más dietas, estão fazendo o jogo da
indústria alimentícia. Essa história de que a pessoa pode, sim, comer
aquele chocolate ou tomar aquele refrigerante, desde que saiba balancear o
consumo, é apenas uma maneira de deixar a indústria agir como
quiser. |
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Veja – Sempre se diz que, quando enfrentam
problemas, a tendência das pessoas é comer mais. Qual a relação entre
psicologia e obesidade? James
– É verdade que algumas pessoas descontam os problemas
na comida. Mas dizer que obesos são indivíduos perturbados
psicologicamente é ridículo. Na maioria das sociedades, ser gordo é visto
como uma coisa feia. Além disso, ao engordar muito as pessoas ficam sem
ar, sentem dor nas costas, os joelhos dão trabalho. As mulheres são as
maiores vítimas: a sociedade impõe que, para serem sexy, têm de ser magras
como as modelos de revista, que, por sua vez, para chegar ao peso-pluma,
normalmente fumam e usam drogas para não sentir fome. Mas os homens também
sofrem. Em diversos países, policiais, bombeiros, militares e pilotos têm
de mudar de profissão se engordam muito. |
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Veja – Como a obesidade afeta a vida sexual das
pessoas? James
– O tema é interessante e ainda não foi muito
explorado. Quando mulheres se tornam obesas, seu equilíbrio hormonal muda
drasticamente. As células produzem menos hormônios sexuais femininos, o
ciclo menstrual fica irregular e algumas se tornam estéreis. Já a
atividade sexual, propriamente, está mais ligada a aspectos culturais. Na
Nigéria, gordura simboliza riqueza e saúde – o que, para eles, é
sexualmente muito atraente. Na Inglaterra, por outro lado, quando uma
mulher obesa perde muitos quilos, sua personalidade muda: ela fica mais
cheia de energia e aumenta a atividade sexual. |
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Veja – Faz trinta anos que o doutor Robert
Atkins é criticado pela comunidade médica por pregar que as pessoas podem
comer gordura e mesmo assim emagrecer. Há poucos meses, Walter Willett,
presidente do Departamento de Nutrição da Escola de Saúde Pública da
Universidade Harvard, divulgou uma pesquisa mostrando que a dieta pobre em
gordura não é necessariamente mais saudável. O que o senhor
acha? James
– Trata-se de um assunto muito sensível. Willett diz
que o problema não é a gordura, e sim o carboidrato – ou melhor, o
refinamento do carboidrato, processo em que o setor alimentício remove
todas as fibras dos alimentos. No começo deste ano, revisamos a questão na
Organização Mundial de Saúde, analisamos o trabalho de Willett e
concluímos que a dieta de Atkins é um truque inteligente: ao cortar uma
série de alimentos, faz as pessoas efetivamente comer menos e
conseqüentemente emagrecer. Mas a quantidade de gordura que ingerem pode
levar a problemas cardíacos e diabetes. O único objetivo de Atkins é a
perda de peso. Ele ganhou rios de dinheiro e as pessoas perderam peso. A
questão é: como viver muito tempo, de maneira saudável? Resposta: mantendo
uma dieta rica em carboidratos que não contenham açúcar, bastante grãos,
cereais, frutas e vegetais e pobre em sal. |
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Veja – Qual a sua opinião sobre os remédios
para emagrecer? James
– Não resolvem. Nossa mente é programada para não
morrermos de fome, não para combatermos a obesidade. Quando estamos acima
do peso e tentamos emagrecer, ela diz: "Espere aí, estou gostando desses
10 quilos extras de gordura". Já, ao emagrecer rápido, a mente recebe um
sinal como se a pessoa estivesse literalmente morrendo de fome. Por isso,
sempre repito: é mais importante prevenir o problema que deixar chegar a
esse ponto. |
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Veja – Uma busca pela palavra "dieta" no site
Amazon.com resulta em quase 3.000 livros. Para "perda de peso" aparecem
mais de 1.600 publicações. Esses livros adiantam alguma coisa? Ou as
pessoas costumam lê-los saboreando um
chocolate? James
– A experiência de ser magro é individual. Não adianta
emagrecer e depois voltar para os antigos hábitos. Educação nutricional
não é resposta para o problema. Muito mais fundamentais são as mensagens
passadas pela televisão e a aplicação de regras de boa alimentação nas
escolas. |
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Veja – Que medidas já foram adotadas que podem
servir de exemplo para todos? James – Na Finlândia, o custo dos legumes nos restaurantes
está incluído na refeição e não se paga extra por eles. Saladas são à
vontade e grátis. Com isso, o consumo de hortaliças no país triplicou. O
programa finlandês de melhora nutricional é o mais eficaz já visto no
mundo. |
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Veja – Qual a melhor receita preparada por sua
esposa? James
– Um prato de peixe acompanhado de quatro tipos de
legume. Aliás, como dez porções de legumes e verduras por dia. Minha dieta
tem apenas 20% de gordura, quase não como açúcar, raríssimas vezes usamos
alimentos prontos. Nós mesmos cozinhamos. Na minha casa, onde moramos eu e
minha mulher, 1 litro de óleo dura nove meses; meio quilo de açúcar, quase
um ano. Nem por isso assustamos as pessoas – sempre temos visitas para o
jantar. |
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Fonte das Informações: |
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