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Revista Veja . Edição 1820 . 17 de setembro de 2003
Sobram quilos, faltam dados
Uma pesquisa mostra que a pouca informação é o problema dos brasileiros que querem emagrecer
Paula Neiva

Os brasileiros estão entre os que mais tentam emagrecer e os que mais têm dificuldade para controlar o peso, especialmente as mulheres. Nossa (eterna) luta contra a balança foi esmiuçada num levantamento patrocinado pelo laboratório farmacêutico Abbott. Mais do que uma simples radiografia da obesidade no Brasil, o trabalho traz dados que ajudam a explicar por que essa guerra tende a ser inglória. O motivo é simples: as concepções dos brasileiros sobre como enxugar a silhueta são completamente equivocadas. As conseqüências disso são desastrosas – falta de ânimo, abandono do programa de emagrecimento e o inevitável círculo vicioso do emagrece, engorda, emagrece, engorda.

O mais grave de nossos erros é acreditar que a melhor forma de emagrecer é perder peso rapidamente. Em nenhum outro país esse engano é tão comum quanto aqui. O laboratório Abbott fez a mesma pesquisa em outros oito países e constatou que 25% dos brasileiros têm essa crença, contra 6% dos ingleses, 7% dos alemães e 8% dos espanhóis. Embarcar num regime rigorosíssimo pode até surtir efeito nas primeiras semanas. O problema é que ninguém agüenta viver à base de uma dieta extremamente restritiva por um longo período. Até três meses depois de iniciar a dieta, seis de cada dez brasileiros abandonam tudo e retomam os hábitos alimentares anteriores (veja quadro ao lado). Nada menos que um quarto recupera os quilos perdidos, e mais rápido do que se livrou deles. A explicação é que, quando ocorre uma redução drástica no consumo de calorias, o organismo passa a trabalhar num ritmo mais lento como forma de poupar energia. Quando a pessoa volta a ingerir a mesma quantidade de comida de antes do regime, essa baixa metabólica persiste por algum tempo, o que leva a que se engorde mais velozmente. A partir daí tem início o filme que muitos brasileiros protagonizam. Voltam a ser motivo de incômodo a barriga saliente, os pneus na cintura, os braços e coxas roliços. Retoma-se a dieta, para em seguida abandoná-la outra vez. E assim vai. Seis de cada dez brasileiros que entraram em dieta nos últimos três anos não conseguiram manter a nova silhueta e padeceram do engorda-emagrece-engorda. O "efeito sanfona" não é só um incômodo estético. Ele pode ter sérias repercussões para a saúde, entre as quais o aumento do risco de doenças cardiovasculares. Além disso, por causa dele, a cada nova dieta fica mais difícil perder peso.

Quem mais relata dificuldades para afinar a silhueta são as mulheres acima de 35 anos. Comparado ao sexo masculino, o feminino tem mais depósito de tecido adiposo. Além disso, conforme a idade avança, fica cada vez mais difícil emagrecer – e essa maldição é mais acentuada nelas, por causa de questões hormonais principalmente. Para se ter uma idéia, o ritmo do metabolismo é reduzido a cada década a partir dos 30 anos. Resultado: ganham-se, em média, 4 quilos a cada dez anos.

A saída, segundo os médicos, é estabelecer metas razoáveis de emagrecimento. A perda recomendável é de 10% do peso inicial num prazo de seis meses. Querer perder mais do que isso em menos tempo representa um perigo para a saúde, além de ser praticamente inalcançável. A dieta com maiores chances de sucesso é a de, no mínimo, 1.200 calorias diárias. Com essa fórmula fica mais fácil manter-se fiel ao programa de emagrecimento. Estabelecer como objetivo de médio prazo 10% de quilos a menos pode parecer pouco. Mas é assim, devagar, que o organismo vai se adaptando ao "novo peso". Se, passado esse período de meio ano, o espelho continuar a clamar por uma imagem mais esbelta, é possível reduzir ainda mais a ingestão de calorias, sem grande sofrimento.

Outro equívoco dos brasileiros é imaginar que, para livrar-se dos males típicos da obesidade, como hipertensão, diabetes e aumento do risco de problemas cardíacos, é necessário perder mais de um décimo do peso total. Muita gente prefere nem arriscar, de tão árdua que a tarefa parece. É verdade que, para anular de vez os perigos que o excesso de peso representa para a saúde, só mesmo deixando de ser obeso. Mas reduzir o peso entre 5% e 10% já é suficiente para minimizar os efeitos deletérios da obesidade, em um primeiro momento. A dificuldade para perder peso é tamanha que uma parcela significativa dos entrevistados de todas as nacionalidades afirma que estar em paz com a balança é uma das questões mais desafiadoras de nosso tempo.

A Dificuldade em números
Para muitos brasileiros, emagrecer é mais penoso do que...
...Largar o cigarro...
...Poupar dinheiro.
40% tentaram emagrecer nos últimos três anos
6 em cada 10 não conseguiram manter o "novo peso"
Deles, 25% recuperaram tudo o que haviam perdido
62% desistiram da dieta e dos exercícios físicos menos de três meses depois de iniciar o programa
Desses, 50% abandonaram tudo em menos de um mês
E 20% largaram em uma semana.
Estratégia Equivocada
Uma pesquisa com 1001 pessoas de 18 a 64 anos revela que boa parte dos brasileiros encara a batalha contra a balança de modo completamente errada.
25% dos brasileiros acreditam que o melhor é perder peso rapidamente 90% dizem que é preciso eliminar mais de 10% do peso total para reduzir o risco de doenças relacionadas à obesidade
Essa concepção é errada porque...
...para perder peso com rapidez é preciso recorrer a dietas extremamente restritivas, o que ninguém agüenta.
O ideal é fazer uma dieta de, no mínimo, 1200 calorias diárias. Dessa forma, em seis meses as pessoas perdem, em média, 10% do peso inicial.
...com a perda de 5% a 10% da massa corporal é possível diminuir muito o risco de males associados ao excesso de peso, como doenças cardíacas, hipertensão e diabetes.
Fonte das Informações:
 
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