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A imagem que se tem do carioca é a de um povo
saudável, bronzeado, em forma, que corre no calçadão, toma muito
suco natural e pratica futevôlei e surfe. Em alguns pontos, como em
frente à Barraca do Pepê, na Barra, por exemplo, talvez seja
possível passar um ano inteiro sem avistar um único físico com
imperfeições flagrantes. É por isso que o paradoxo carioca causa
surpresa: embora uma parte – a mais visível – da população exiba os
corpos louvados mundo afora, outra, sabe-se agora, come demais. Uma
pesquisa inédita realizada pelo Ministério da Saúde em parceria com
o Instituto Nacional de Câncer (Inca), em quinze capitais
brasileiras mais o Distrito Federal, coloca o Rio em primeiro lugar
no número de ocorrências de casos de sobrepeso e obesidade – 48,1%
da população com mais de 18 anos pesa mais do que deveria. Em
segundo lugar vem Porto Alegre, com 45,1%, seguida de Curitiba (43%)
e São Paulo (42,8%). A pesquisa mostra que, no total de cidades
investigadas, os entrevistados que apresentam índice de massa
corporal (o IMC, que é o peso dividido pela altura ao quadrado)
acima do considerado normal – a faixa que vai de 18,5 a 24,9 –
chegam a 40,3%, sendo que pouco mais de 10,9% destes são obesos e
29,4% estão acima do peso ideal. Ou seja, quase metade dos
brasileiros tem problemas com a balança.
A escalada dos quilos indesejados segue um
padrão conhecido que mistura fatores sociais recentes (o maior
acesso a comida, geralmente do tipo engordativo, e a menor
necessidade de atividades físicas para garantir a sobrevivência)
contra um pano de fundo ancestral (a programação genética que
"ensina" o organismo dos humanos a acumular o máximo de gordura
possível, como se ainda vivêssemos nas remotas eras de escassez).
Tal como já aconteceu nos Estados Unidos, com resultados alarmantes,
a pesquisa confirma que os índices de obesidade no Brasil vêm
aumentando com maior velocidade entre a população de menor poder
aquisitivo. "O problema já é tão grave que não podemos primeiro
atacar a fome para depois nos preocupar com o excesso de peso. Temos
de atirar nos dois ao mesmo tempo", alerta Jarbas Barbosa,
secretário de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde.
As explicações do paradoxo carioca apontam na
mesma direção. A maioria da população mora bem longe da praia e do
calçadão, onde o culto à boa forma é tão facilitado e socialmente
incentivado – só 10% dos 6 milhões de habitantes da cidade vive na
orla ou perto dela. Em bairros de classe média baixa e mesmo em
favelas, que englobam uma multiplicidade de faixas de renda, nas
últimas décadas o poder aquisitivo aumentou. Como quando sobra um
dinheirinho a tendência é consumir mais alimentos calóricos, o
excesso de peso foi tomando o lugar da falta de comida. "É por isso
que na favela tem mais obeso do que desnutrido", afirma um
endocrinologista carioca. Até a notória situação de violência
urbana pode ser invocada, pelos mais imaginativos, para justificar o
terceiro pilar da obesidade, o sedentarismo. O técnico em
contabilidade Robson Góis, de 33 anos, morador da Ilha do
Governador, jura que engordou 30 quilos nos últimos quatro anos,
depois que, receoso da criminalidade, parou de jogar pelada com os
amigos. "Meu carro e o do meu amigo, que eu tinha pegado emprestado,
foram roubados na mesma semana. Agora, tomo cerveja em casa", diz
Góis, que pesa 124 quilos.
Em cidades como Porto Alegre e Curitiba,
vice-campeãs no ranking da obesidade, o alto índice causa menos
perplexidade: são conhecidos os fatores culturais inimigos da boa
forma. "Os descendentes de alemães e italianos têm o hábito de comer
muito. Em cada refeição, há pelo menos seis pratos diferentes", diz
o endocrinologista gaúcho Giuseppe Repetto. No extremo oposto, a
posição da esguia Aracaju, com o menor porcentual de obesidade e
sobrepeso da pesquisa (35,3%), é atribuída à prevalência da
alimentação tradicional dos brasileiros de baixa renda, em que os
"produtos da roça" predominam.
Não é demais repetir que a obesidade, nos
níveis em que é registrada atualmente, se tornou um caso de saúde
pública. Pessoas obesas são mais suscetíveis a hipertensão, doenças
cardiovasculares, diabetes e alguns tipos de câncer. Os efeitos
sobre a saúde psíquica também são custosos. Por trás do sorriso
largo e da expressão bem-humorada que provoca tanta empatia, muitos
obesos sofrem com a auto-estima devastada. "Ninguém me olha mais
como mulher e o meu marido me chama de baleia. Quanto mais triste
fico, mais eu belisco", desabafa a cozinheira carioca Luiza Helena
dos Santos Rodrigues, 38 anos e 130 quilos. A rede pública do Rio de
Janeiro contabiliza 5.000 casos de
obesidade extrema, os chamados obesos mórbidos, aguardando na fila
para se submeter à cirurgia de redução de estômago. "Entre eles há
300 pacientes que não conseguem sair de casa por causa do peso", diz
Coutinho. Foi o medo de ficar preso à cama por causa de uma
inflamação na perna decorrente do excesso de peso que levou Luiz
Cabral de Oliveira, 52 anos, a fechar as portas de sua empresa para
se dedicar exclusivamente ao tratamento para perder parte dos 181
quilos. "No almoço, eu comia 2,5 quilos de comida e tomava 2 litros
de refrigerante", lembra Cabral, que já perdeu 43 quilos. As
comodidades da vida contemporânea também podem se transformar em
inimigas temíveis. Calcula-se que uma extensão telefônica possa
engordar o usuário, em média, 1,1 quilo por ano. Ao trocar um carro
popular por um de luxo, com direção hidráulica e vidro elétrico, o
motorista geneticamente tendente ao excesso de peso deixa de queimar
cerca de 100 calorias por dia e ganha 4 quilos por ano. A enfermeira
carioca Ana Cláudia Pinheiro Machado, 36 anos, 87 quilos, diz que
virou "escrava do microondas e das massas instantâneas". Percebeu
que tinha passado dos limites quando se abaixou para recolher os
brinquedos dos filhos e não conseguiu por causa da barriga.
Em alta praticamente no mundo todo, o peso
excessivo virou obsessão nos Estados Unidos, onde, segundo dados da
Associação Internacional para o Estudo da Obesidade, 30% da
população é obesa. Calcula-se que o país perca quase 4 bilhões de
dólares por ano em produtividade em conseqüência da obesidade e que
o mercado de produtos para emagrecer movimente 33 bilhões de
dólares. Novidade mais recente: caixões tamanho GGG para resolver o
problema de defuntos que não tinham como passar dignamente para o
plano superior. Verdadeira mania nacional, as dietas de redução
drástica de carboidratos afetam até setores importantes da economia
– incluindo o suco de laranja brasileiro. Embora a maioria dos
médicos não recomende esse tipo de regime, produtores agrícolas,
preocupados, tentam reagir. Em janeiro chega às prateleiras dos
supermercados, vinda da Flórida, uma espécie de batata geneticamente
modificada que contém 30% menos carboidratos. É difícil imaginar que
vá resolver o problema da multiplicação dos quilos. |
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Em cada dez brasileiros que moram
em quinze capitais e no Distrito Federal, pelo menos quatro
sofrem de obesidade ou sobrepeso. Veja a colocação e os
percentuais de cada local: |
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Rio de Janeiro |
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Porto Alegre |
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Curitiba |
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São Paulo |
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Recife |
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Manaus |
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Fortaleza |
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Florianópolis |
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Vitória |
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João Pessoa |
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Belo Horizonte |
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Campo Grande |
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Belém |
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Natal |
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Distrito Federal |
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Aracaju |
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