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Revista Veja . Edição 1860 . 30 de junho de 2004
Os cariocas na balança
Pesquisa em capitais brasileiras mostra que o Rio de Janeiro é o campeão do excesso de peso
Sandra Brasil
 
Foto: Marcelo Correa/1000 Palavras

A imagem que se tem do carioca é a de um povo saudável, bronzeado, em forma, que corre no calçadão, toma muito suco natural e pratica futevôlei e surfe. Em alguns pontos, como em frente à Barraca do Pepê, na Barra, por exemplo, talvez seja possível passar um ano inteiro sem avistar um único físico com imperfeições flagrantes. É por isso que o paradoxo carioca causa surpresa: embora uma parte – a mais visível – da população exiba os corpos louvados mundo afora, outra, sabe-se agora, come demais. Uma pesquisa inédita realizada pelo Ministério da Saúde em parceria com o Instituto Nacional de Câncer (Inca), em quinze capitais brasileiras mais o Distrito Federal, coloca o Rio em primeiro lugar no número de ocorrências de casos de sobrepeso e obesidade – 48,1% da população com mais de 18 anos pesa mais do que deveria. Em segundo lugar vem Porto Alegre, com 45,1%, seguida de Curitiba (43%) e São Paulo (42,8%). A pesquisa mostra que, no total de cidades investigadas, os entrevistados que apresentam índice de massa corporal (o IMC, que é o peso dividido pela altura ao quadrado) acima do considerado normal – a faixa que vai de 18,5 a 24,9 – chegam a 40,3%, sendo que pouco mais de 10,9% destes são obesos e 29,4% estão acima do peso ideal. Ou seja, quase metade dos brasileiros tem problemas com a balança.

A escalada dos quilos indesejados segue um padrão conhecido que mistura fatores sociais recentes (o maior acesso a comida, geralmente do tipo engordativo, e a menor necessidade de atividades físicas para garantir a sobrevivência) contra um pano de fundo ancestral (a programação genética que "ensina" o organismo dos humanos a acumular o máximo de gordura possível, como se ainda vivêssemos nas remotas eras de escassez). Tal como já aconteceu nos Estados Unidos, com resultados alarmantes, a pesquisa confirma que os índices de obesidade no Brasil vêm aumentando com maior velocidade entre a população de menor poder aquisitivo. "O problema já é tão grave que não podemos primeiro atacar a fome para depois nos preocupar com o excesso de peso. Temos de atirar nos dois ao mesmo tempo", alerta Jarbas Barbosa, secretário de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde.

As explicações do paradoxo carioca apontam na mesma direção. A maioria da população mora bem longe da praia e do calçadão, onde o culto à boa forma é tão facilitado e socialmente incentivado – só 10% dos 6 milhões de habitantes da cidade vive na orla ou perto dela. Em bairros de classe média baixa e mesmo em favelas, que englobam uma multiplicidade de faixas de renda, nas últimas décadas o poder aquisitivo aumentou. Como quando sobra um dinheirinho a tendência é consumir mais alimentos calóricos, o excesso de peso foi tomando o lugar da falta de comida. "É por isso que na favela tem mais obeso do que desnutrido", afirma um endocrinologista carioca. Até a notória situação de violência urbana pode ser invocada, pelos mais imaginativos, para justificar o terceiro pilar da obesidade, o sedentarismo. O técnico em contabilidade Robson Góis, de 33 anos, morador da Ilha do Governador, jura que engordou 30 quilos nos últimos quatro anos, depois que, receoso da criminalidade, parou de jogar pelada com os amigos. "Meu carro e o do meu amigo, que eu tinha pegado emprestado, foram roubados na mesma semana. Agora, tomo cerveja em casa", diz Góis, que pesa 124 quilos.

Em cidades como Porto Alegre e Curitiba, vice-campeãs no ranking da obesidade, o alto índice causa menos perplexidade: são conhecidos os fatores culturais inimigos da boa forma. "Os descendentes de alemães e italianos têm o hábito de comer muito. Em cada refeição, há pelo menos seis pratos diferentes", diz o endocrinologista gaúcho Giuseppe Repetto. No extremo oposto, a posição da esguia Aracaju, com o menor porcentual de obesidade e sobrepeso da pesquisa (35,3%), é atribuída à prevalência da alimentação tradicional dos brasileiros de baixa renda, em que os "produtos da roça" predominam.

Não é demais repetir que a obesidade, nos níveis em que é registrada atualmente, se tornou um caso de saúde pública. Pessoas obesas são mais suscetíveis a hipertensão, doenças cardiovasculares, diabetes e alguns tipos de câncer. Os efeitos sobre a saúde psíquica também são custosos. Por trás do sorriso largo e da expressão bem-humorada que provoca tanta empatia, muitos obesos sofrem com a auto-estima devastada. "Ninguém me olha mais como mulher e o meu marido me chama de baleia. Quanto mais triste fico, mais eu belisco", desabafa a cozinheira carioca Luiza Helena dos Santos Rodrigues, 38 anos e 130 quilos. A rede pública do Rio de Janeiro contabiliza 5.000 casos de obesidade extrema, os chamados obesos mórbidos, aguardando na fila para se submeter à cirurgia de redução de estômago. "Entre eles há 300 pacientes que não conseguem sair de casa por causa do peso", diz Coutinho. Foi o medo de ficar preso à cama por causa de uma inflamação na perna decorrente do excesso de peso que levou Luiz Cabral de Oliveira, 52 anos, a fechar as portas de sua empresa para se dedicar exclusivamente ao tratamento para perder parte dos 181 quilos. "No almoço, eu comia 2,5 quilos de comida e tomava 2 litros de refrigerante", lembra Cabral, que já perdeu 43 quilos. As comodidades da vida contemporânea também podem se transformar em inimigas temíveis. Calcula-se que uma extensão telefônica possa engordar o usuário, em média, 1,1 quilo por ano. Ao trocar um carro popular por um de luxo, com direção hidráulica e vidro elétrico, o motorista geneticamente tendente ao excesso de peso deixa de queimar cerca de 100 calorias por dia e ganha 4 quilos por ano. A enfermeira carioca Ana Cláudia Pinheiro Machado, 36 anos, 87 quilos, diz que virou "escrava do microondas e das massas instantâneas". Percebeu que tinha passado dos limites quando se abaixou para recolher os brinquedos dos filhos e não conseguiu por causa da barriga.

Em alta praticamente no mundo todo, o peso excessivo virou obsessão nos Estados Unidos, onde, segundo dados da Associação Internacional para o Estudo da Obesidade, 30% da população é obesa. Calcula-se que o país perca quase 4 bilhões de dólares por ano em produtividade em conseqüência da obesidade e que o mercado de produtos para emagrecer movimente 33 bilhões de dólares. Novidade mais recente: caixões tamanho GGG para resolver o problema de defuntos que não tinham como passar dignamente para o plano superior. Verdadeira mania nacional, as dietas de redução drástica de carboidratos afetam até setores importantes da economia – incluindo o suco de laranja brasileiro. Embora a maioria dos médicos não recomende esse tipo de regime, produtores agrícolas, preocupados, tentam reagir. Em janeiro chega às prateleiras dos supermercados, vinda da Flórida, uma espécie de batata geneticamente modificada que contém 30% menos carboidratos. É difícil imaginar que vá resolver o problema da multiplicação dos quilos.

Os Campeões do excesso
Em cada dez brasileiros que moram em quinze capitais e no Distrito Federal, pelo menos quatro sofrem de obesidade ou sobrepeso. Veja a colocação e os percentuais de cada local:
Obesos (%) Sobrepeso (%)
Total (%)
Rio de Janeiro
13,6% 34,5%
48,1%
Porto Alegre
12,9% 32,2%
45,1%
Curitiba
11,6% 31,4%
43%
São Paulo
12,4% 30,4%
42,8%
Recife
12% 29,8%
41,8%
Manaus
10,6% 31,2%
41,8%
Fortaleza
10% 31%
41%
Florianópolis
11,1% 29,5%
40,6%
Vitória
8,7% 30,5%
39,2%
João Pessoa
10,7% 28,3%
39%
Belo Horizonte
9,7% 29,2%
38,9%
Campo Grande
11,7% 27,2%
38,9%
Belém
9,2% 27,9%
37,1%
Natal
11,6% 24,6%
36,2%
Distrito Federal
9,2% 26,8%
36%
Aracaju
8,9% 26,4%
35,3%
Fonte das Informações:
 
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